faro de raposa e coração de cachorro
by junio

Acordei, fumei um cigarro e fui ler as notícias, como de costume. Apesar de nos últimos tempos a rotina do brasileiro ser baseada em abrir os jornais e dar de cara com alguma polêmica, não esperava por aquilo. Dois jovens, poucos minutos antes, haviam invadido uma escola em Suzano, e abriram fogo contra alunos.
Durante todo o dia, nos vários meios de comunicação, a cobertura do caso era destaque com inúmeras interrogações. Por quê? Quem era as vítimas? Quantos feridos? Quem são os autores?
A missão daqueles, em um momento difícil como esse, de tentar responder a milhares de pessoas que, em seus celulares, televisões ou computadores, buscam respostas, é complicada.
São pagos para fazer seu trabalho, que requer perseverança, sorte, responsabilidade e frieza. Mas agir com a razão em uma situação como aquela, onde a carga emocional é alta, principalmente quando se está vivendo de perto, fica difícil.
Ainda assim é preciso encontrar um ponto de equilíbrio. Informar, mas respeitando aquelas histórias.
Por trás das câmeras, microfones, canetas, cadernos e gravadores, existem seres humanos sujeito a erros.
Mas durante aquele dia, em alguns veículos, o que se viu foi um jornalismo cão, errando por opção.
A irresponsabilidade e o sensacionalismo nada têm a ver com a principal função da profissão. Show de horror em rede nacional, para todos que quisessem ver. A missão não parecia ser informar, mas sim ter mais audiência. Sem se importar muito com o caminho.
Os números, apesar de importantes, não são o objetivo de um bom jornalismo, mas eles dizem muita coisa. Talvez o erro não seja apenas da imprensa, mas sim de uma cultura canibal, afinal, eles mostram que há um grande público que gosta e consome esse tipo de noticia todos os dias.
Missão difícil. É preciso ter faro de raposa para apurar, e coração de cachorro na forma de agir. Falhas acontecem no caminho, mas o que se viu naquele dia foram pessoas errando de forma proposital e consciente.
