olhos distantes
by junio

Na primeira vez que nos encontramos percebi sua mania de mexer nos cabelos a todo instante, principalmente ao fazer escolhas. Naquele fim de tarde, sentados em um café próximo à w3 sul, não foi diferente. A mulher de olhos castanhos acariciava o cabelo, e por quase cinco minutos, tentava decidi o que beber.
Cabelo loiro cacheado, sempre vestida como uma atriz dos anos 70, Isabela, 22 anos, estuda medicina veterinária, e leva uma vida normal, como qualquer jovem de sua idade, sem levantar suspeitas do que trás dentro de si.
Vinda de uma cidade litorânea do Rio de Janeiro para Brasília, ainda quando criança, até hoje carrega o sotaque e trejeitos de um carioca. A fala continuava arrastada, e as palavras terminadas em “s”, sempre são pronunciadas com um chiado.
O jeito retraído dá lugar a uma mulher imponente ao falar sobre o que defende na vida profissional e pessoal. “É revoltante”, deu um gole em seu café expresso, “Todos os dias vejo animais sendo abandonados, maltratados. Todo os dia na clinica recebemos vários casos”, falava certa raiva sobre o que via em estágio.
Parecia a mesma que conheci anos atrás. A vegetariana que amava os animais, doce de leite com queijo, defender as mulheres, e odiava injustiças com os menos favorecidos.
Mas algo tinha mudado.
Há violências que marcam para sempre. Isabela era prova disso. Via os reflexos do abuso que sofreu ainda quando criança, dentro da própria casa, partindo de alguém que teria a obrigação de defendê-la, tornar-se presente por toda a sua vida.
Marcas que iam desde sua forma de pensar, de se relacionar com família, amigos e companheiros amorosos, até transtornos psicológicos causados pelo episódio.
Mas naquela tarde no café, contando os avanços que teve em sua vida depois de procurar ajuda, com orgulho de sua coragem, ainda que fosse difícil cutucar uma ferida que sempre estaria ali, era claro que algo havia mudado.
Não havia disso fácil, mas ali estava uma melhor versão de Bela, como prefere ser chamada. Ainda parecia a mesma, exceto pelos olhos, que agora, ao invés de distantes, confusos e desconfiados, davam lugar a um olhar que refletia a certeza e afirmação de sua própria força de buscar a todo custo ter de volta a paz que perdeu naquele dia, quando ainda era só uma menina.
