derby prata

o amor é um mar revolto jogando um banhista contra as pedras

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Era uma bela manhã. Sob um céu azul, e um orvalho das seis da manhã, a praia parecia vazia. As poucas pessoas presentes ali eram as que já começavam a trabalhar nos quiosques da orla, descendo cadeiras, armando barracas e começando os preparativos para mais um dia de trabalho.

– Olha como o mar tá agitado hoje, olha essa brisa – Manoel fechou os olhos e respirou fundo, deixando o vento forte do inicio de dia bater em seu rosto e entrar pelo seu nariz – Tô doido pra entrar logo!

Apesar da alta temporada, onde o lugar era tomado por turistas, moradores locais que estavam em período de férias e vendedores ambulantes, as terças eram os melhores dias para quem queria aproveitar uma praia mais vazia.

As luzes dos postes que iluminavam o calçadão começavam a se apagar na medida que o sol alaranjado nascia no horizonte. As ondas do mar arrebentavam na beira da praia, formando uma espuma branca e lenta, mas que enganava.

Naquele momento, Manoel, um morador do interior do estado que dificilmente tinha a possibilidade de ver o mar, pela vida pesada que levava em sua roça, plantando legumes, há mais de 600 km da capital, só queria entrar logo na água e aproveitar cada segundo de suas férias.

– É melhor esperar um pouco, a água tá meio agitada agora, não tá legal para curtir – dizia Fagner, primo de Manoel, surfista de quase 40 anos, que trazia em seu semblante a tranquilidade e calmaria de uma pessoa criada no litoral por toda a vida, e que o acolheu em sua casa durante a estadia do camponês na cidade grande.

– Eu sei nadar! – respondeu Manoel enquanto já tirava a camisa e dava os primeiros passos rumo a água.

“Conheço esse mar há mais de trinta anos…”, pensava Fagner vendo o primo se entrar na água.

Passar facilmente pelas primeiras marolas, que ainda assim eram fortes, deu confiança a Manoel.

– MANOEL, NÃO VAI TÃO LONGE, O MAR TÁ AGITADO, É MELHOR VOLTAR – gritava Fagner da beira da água, acenando para o primo que parecia não se importar com o aviso.

Ao se distanciava cada vez mais da praia, o homem ia ficando cego pela confiança que tomou conta de seu corpo e começou desacreditar do poder do mar.

Mas as coisas começaram a ficar perigosas quando as ondas, cada vez mais fortes, rápidas e maiores, começavam a engolir o homem do interior, que nesse momento já apresentava sinais de cansaço, não conseguindo mais fura-las ou nadar por cima.

Da praia Fagner observava o primo tentando, inutilmente, nadar de volta, enquanto o mar, por sua vez, não tomava consciência dele, o arrastando de um lado para o outro, jogando-o no fundo, para os lados e contra pequenas pedras que existiam ali.

Minutos depois de conseguir se desvencilhar das ondas que o trataram como um boneco, Manoel, agora com algumas partes do corpo raladas por conta da areia e outras roxas, sentou ao lado de seu primo, cansado e aliviado.

– Eu não consegui nadar, quando percebi as ondas já tinham me dominado e eu só era jogado de um lado para o outro – dizia esbaforido e com expressão de cansaço – Tô com o ombro doendo, acho que bati em uma pedra com muita força. Era inútil eu nadar contra. Dei sorte que as ondas me arrastaram a beira da praia – Manoel falava olhava para os ferimentos pelo corpo, avaliando o estrago.

– O mar estava revoltado, eu falei pra não entrar, mas você não quis me ouvir – Fagner falava com a mesma tranquilidade de sempre – Vai ali no chuveiro e vê se limpa esses arranhões.

– Tá bom.

“Já vi muita gente não tomar cuidado com o mar. Mas poucas vezes vi alguém perder o controle sob si mesmo dessa forma. Mas todos eles foram por não escutar os avisos”, olhava para as ondas no horizonte e entendia a força que elas tinha, enquanto Manoel corria para se lavar, “Alguns nessas águas, e outros quando se envolveram com o amor”.

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