Ao ligar a televisão naquela manhã abafada de uma quarta-feira de janeiro, Eugênio parecia não queria acreditar no que via.
“Após ameaças de morte, deputado reeleito decide não assumir cargo e parte para exílio, temendo por sua vida”.
Nos olhos daquele senhor de cabelos brancos, bigode que cobria os lábios e roupas sociais, parecia passar um filme repetido, que ele conhecia bem.
Sentado com sua mulher no sofá da sala de seu apartamento no subúrbio, onde decidiu passar a sua velhice, Eugênio assistia o noticiário sem expressar surpresa.
– Isso não ia demorar acontecer – comentava com Fernanda, sua esposa – esse governo não passa de uma velha era de cara nova.
O professor aposentado conhecia aquele discurso dos tempos onde lutou como aluno para que ele, e outras pessoas, pudessem ter o direto básico, assegurado pela constituição, de serem livres.
Lembrando-se do discurso do presidente em atividade em seu primeiro evento internacional há poucos dias, Eugênio sentiu um déjà-vu.
– Eles não se esforçam nem para reformular as falas. Os motivos parecem sempre os mesmos – dizia com uma sensação nostálgica, não tão boa, para sua mulher, Fernanda – Falam sobre moral e defesa da família, em combater a corrupção, preservar o meio ambiente, em serem nacionalistas e atribuem tudo que há de ruim para a esquerda, prometendo acabar com ela e todos aqueles que pensam diferente de seus ideais.
– Achei que isso não voltaria a acontecer. Uma pessoa precisar sair do seu próprio país por ser ameaçado, simplesmente por ser, pensar diferente e questionar o que está acontecendo – falava Fernanda com o olhar frustrado e atento para a televisão.
– É apenas o começo. Torço pelo contrário. Prefiro acreditar que não há tanta capacidade e força, baseado naquele discurso de dias atrás, em alguém que não consegue ao menos se expressar e falar o que pretende fazer durante seu governo.
– O problema pode estar ai, meu bem – disse Fernanda – Talvez nem mesmo eles saibam o que vão fazer. Falam de forma rasa, mas dizem o que agrada boa parte da população. E nesses casos, a incerteza pode torna-se uma armadilha.
– Fazendo isso, como há 50 anos atrás, eles conseguem tampar os olhos de todos, com suas supostas boas intenções em prol do país, e assim fazem o que bem querem – Eugênio finalizava o pensamento, que não parecia unanimidade dele e de sua esposa.
E era justamente o que parecia acontecer. Alguns tampavam os olhos para os casos que antecederam e sucederam o primeiro mês de governo.
Manipulação por meio de redes sociais durante a campanha eleitoral, exaltação à torturadores, incoerência na escolha de ministros para pastas do governo, a eminente saída do Acordo de Paris, retrocessos na Lei de Acesso à Informação, o caso de lavagem de dinheiro envolvendo o filho e amigo de longa data do então presidente da república, ligação do mesmo com milicianos, o tom de perseguição e preconceito contra minorias. Tudo isso em apenas vinte e seis dias.
Alguns pareciam ter sido atingidos por uma espécie de cegueira. Uns pela incapacidade pela falta de estudos e oportunidades na vida, não por querer, outros pelo comodismo, ou privilegio de terem alguém que pensa como eles.
Enquanto tomavam uma água de coco na orla da praia, após a caminhada de todas as tardes, o casal de cabelos grisalhos ainda pensava sobre no que assistiram aquela manhã. Mas dessa vez não da mesma forma como décadas atrás, e sim com um ar cansado, mas com a esperança de que, assim como eles em sua juventude, os de hoje tivessem a mesma coragem.
– Ao menos ele é verdadeiro no que pensa e fala. Não esconde suas pretensões e como pensa. É a era da queda das máscaras, onde ninguém tem mais vergonha ou preocupação em esconder seus pensamentos preconceituosos – dizia Eugênio, com um olhar distante, rumo às ondas do mar que naquela hora já ficavam calmas.
– Não queria acreditar, mas os sinais parecem iguais. A diferença é que naquela época as pessoas não tinham acesso tão fácil à informação como hoje. Agora é bem mais complicado um governo esconder suas merdas. Não é difícil encontrar falhas, pensar, refletir e encontrar as verdades, a menos que não queiram.
– Vamos torcer para que a vontade de contestar o que está errado e lutar seja maior que a vontade de permanecerem cegos perante a tudo. Que os interesses pessoais não prevaleçam o bem comum, e que assim, não tenhamos que viver novamente os anos onde contestar os valores que nos eram impostos era motivo de repressão – falava Fernanda com a voz calma e olhar que parecia retomar ao passado, que trazia um tom desolador.