possibilidade e consequência

by junio

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Era um sábado chuvoso de dezembro. Pelas ruas só estavam aqueles que, sem importar o clima, nunca deixam de ocupar seus lugares.

O emprego noturno, as mesas de carteado, os balcões e as cadeiras de aço. Ambiente, para muitos, hostil.

Pedi minha bebida e procurei um lugar para sentar. Não parecia uma noite que renderia algo de extraordinário, mas por teimosia, decidi não ficar em casa.

Dentro do quarto, matando o tempo vendo televisão, sentia como se eu fosse apenas um telespectador da minha própria vida.

Sentia a necessidade de estar na rua, principalmente nos lugares onde a maioria das pessoas costumavam se esquivar e lançar maus olhares. Aquilo me parecia mais verdadeiro do que todas as verdades que as pessoas tentam contar através de mentiras.

Sem a rua seria impossível ser quem sou e fazer o que faço. Ainda assim, não julgava aqueles que me julgavam.

Não julgava minhas escolhas a coisa certa para todos, assim como tentava não julgar os que pensavam diferente de mim, como errados.

Peguei mais um copo. A chuva deu uma trégua, e fumar lá fora, sem que o cigarro molhasse, não era mais uma tarefa difícil. Sai.

– Você torce pro Flamengo? – perguntei ao menino de pouco mais de 4 anos que estava do lado de fora do bar.

– Não, eu sou Vasco, igual o meu pai – respondeu.

– E essa camisa ai então? – disse intrigado.

– Ah, o João Lucas torce pra todo time, ele tem camisa do Botafogo, Flamengo, Vasco – ecoou a voz de uma mulher que trabalhava ali na porta daquele buteco todas as noite, vendendo churrasquinho.

Estar ali, em uma noite como aquela, não era nada mais nada menos, que necessidade.

Ouvir histórias e conta-las talvez fosse uma compensação por guardar algumas trancadas dentro de mim.

Existe um ponto onde entendemos que nossa vida é tão somente nossa quanto as pulgas que grudam em um cachorro de rua abandonado à própria sorte.

 

Era compreensível ver pais vindos do nordeste, de uma época difícil, querer ver o filho em uma profissão que ganhasse muito dinheiro, e não somente contando histórias, andando pelas ruas e esperando a próxima na mesa de dominó.

Na vida, talvez seja preciso entender que toda possibilidade trás uma consequência, ainda que para fazer o que se acredita seja preciso lidar com os olhares que mais julgam que tentam enxergar.

Ainda assim eu estava ali, ouvindo a história do homem que sofria de amor ou conversando com o filho que esperava sua mãe, mulher negra, que vendia espetinho até a madrugada para sustentar seis filhos sozinha, ou vendo a mesa de carteado.

E assim como aceitava que me pagassem a saideira sempre, como naquela noite sem grandes acontecimentos, aprendi a aceitar as consequências das escolhas que fiz na vida, indo muitas vezes na contramão, pois só assim poderia ser quem sou.

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