A voz imponente e segura, assim como sua personalidade, dava lugar a uma melancolia que lembrava um velho tango argentino.
– Eu não sabia o que hacer – dizia o sotaque portunhol.
A jovem diplomata, recém-formada em Buenos Aires, acabava de receber uma oportunidade que podia mudar sua vida profissional. Qualquer pessoa não hesitaria em aceitar. Mas as circunstâncias eram adversas.
Apesar da rivalidade no futebol, a cooperação entre a academia argentina e a brasileira sempre foi forte.
Criou coragem. Tomou o avião, e além de seus pertences, na mala do coração levou a saudade, tristeza e esperança.
Um país novo, com língua e cultura diferentes, apesar da proximidade de seu país natal. O desafio de começar uma carreira já enfrentando a aventura que é deixar família e amigos, rumo ao desconhecido.
O ano passou, e em meio ao cotidiano da profissão, da correria do dia a dia, poucos enxergavam além do óbvio. Não havia deixado na Argentina apenas as saudades, como também o conforto de pessoas que poderiam ajuda-la a superar a perca do pai, falecido meses antes de vim para o Brasil.
– Aqui fiz mais que colegas de profissão. Além da “ala internacional” – referia-se aos outros diplomatas vindo de vários países que também formavam o grupo de intercâmbistas – fui muito bem recebida por vocês, brasileiros, que tenho como irmãos agora.
– Quando decidi largar tudo na Argentina para começar à carreira aqui foi muito difícil – a voz já embargava no meio de seu discurso de despedida – Dois meses antes de viajar eu não sabia o que hacer. Mí pai tinha acabado de morrer. Foi difícil superar essa perca longe da minha família e dos meus amigos, mas teria sido pior sem todos vocês, nas aulas, nos chopps, nos trabalhos.
Seu discurso, que começou alegre, parecia agora um tango, arrastado e triste, mas que demonstrava a beleza da dor e da tristeza, inevitáveis na vida de todos.
Quem via Diana andando pelos corredores não imaginava o que havia passado para chegar até aqui, nem mesmo as lições que podia ensinar a todos.
Mostrou que a racionalidade não entende a tristeza, como quando decidiu vim até o país vizinho, atrás de seu futuro, sozinha, ainda que estivesse aos pedaços. E que quando a solidariedade se demonstra, ela só tem uma única língua, universal.
A dor e as lembranças existem, porém a vida aqui só termina quando nos tornamos o motivo de saudade de alguém.