Aquele foi o ano em que Renato quase desistiu de tudo, inclusive de si.
“Vou ou não vou?” – pensava, enquanto olhava para baixo e via a movimentação típica de horário de pico no buraco do tatu.
Em sua cabeça duas faces se manifestavam.
– Vai logo, você não tem nada a perder. Depois disso nada mais vai doer – dizia a voz do mal.
– Por quê você quer fazer isso? Existem tantas coisas boas na sua vida, tanto a se fazer, você ainda é tão jovem, dê mais valor à tudo de bom que possuí – falava a face boa.
Viver nessa montanha russa não era fácil.
Era um homem comum, e fazia coisas comuns. Trabalhava durante a semana, saia com os amigos, gostava de beber fanta uva, odiava o trânsito do fim da tarde e as vezes precisava pular alguma refeição por falta de tempo. Quem o via não enxergava por dentro.
Assim seguia.
Na profissão tudo via eram incertezas e insegurança. Era difícil enxergar um caminho certo pro futuro. Perdeu amigos, no contato e na vida. O amor havia se mostrado uma coisa boa, altruísta, e ao mesmo tempo difícil. Nem mesmo para as coisas que mais gostava de fazer o ânimo dava um alô.
Aquele 1968 não foi um ano difícil só para Renato, mas para o país inteiro. .
As pessoas pareciam não se importar em serem mais humanas. O ódio tomava conta de tudo, vindo de babacas de vários lados. Perseguições, ameaças, pessoas mortas. Um país rachado, onde quem não seguisse a linha autoritária dos que pregavam valores hipócritas, eram perseguidos.
O que estava errado não era apenas a vida de um homem comum, com problemas comuns.
Pensou em se isolar em alguma cidade do interior do nordeste brasileiro e viver uma vida pacata, longe da agitação da cidade, das coisas que faziam mal para ele e em uma sociedade que parece seguir um outro ritmo, como um país a parte.
Daquele viaduto só criaria problema. Alguém ia ter muito trabalho pra limpar o sangue do chão, fora o engarrafamento que causaria e a eterna dúvida nos que amavam ele em entender o porquê.
Pensou em fugir de diversas formas, até entender que o luto ou o desaparecimento poderiam se transformar em outra coisa.
Não há como salvar o mundo sem antes se salvar. No perigo há duas opções: fugir ou lutar com as armas que tem.
Renato entendeu, ao fumar um cigarro em uma manhã que estava de ressaca mas não de bebida, que aquele 1968 podia ter sido ruim, e foi dali que nasceu uma chama de esperança.
Por seus ideais, por sua família, por seus amigos, por seus colegas de profissão, por seu amor, por as pessoas que poderia ajudar.
Pegou sua caderneta e pensando em todas as coisas boas, na carne de panela da mãe, nas bebedeiras com os amigos, nos cabelos cacheados, nos fins de tarde pelas ciclovias, nos olhares de esperança ao dar ouvidos à pessoas invisíveis, nos seus ideais, percebeu que havia muito a se fazer, com vários porquês e motivos.
Ainda há tempo.