o que uma página em branco pode dizer?
by junio

Queria escrever, mas aquela folha de comanda de bar, rabiscada com números, voando pra lá e pra cá na rua não saia da minha cabeça. Pensei quais histórias ela contaria. De quem era aquela conta, e por que ser tão grande? Seriam muitas pessoas naquela mesa de número 21, ou só mais alguém que bebia muito por algum motivo?
Nunca soube.
Uma folha pode dizer muitas coisas, seja qual for. Uma página de caderno escolar, uma lista de compras, um bilhete ou uma comanda de buteco.
Quando sento na frente da máquina e vejo a página em branco esperando o meu toque, sinto ali o poder de contar uma nova história. Mas escrever sem algum motivo, para mim, faz tanto sentido quanto uvas passas em qualquer comida que não seja sorvete de passas e rum.
Se assim fizesse, não importaria. Não teria cheiro, cor e alma. Algo morto, inventada e feita por qualquer outro motivo diferente do principal. Ver na folha uma oportunidade de falar o que não sai da boca, por várias razões.
Sobre o que ia escrever?
O que eu podia colocar na folha em um desses dias abafados e chuvosos que indicam a chegada do inverno?
Podia ser sobre as coisas que me perturbam, quem sabe só relembrar a sensação que tive ao tomar aquele refrigerante no meio do expediente ou sobre aquela tristeza.
Quem sabe eu falaria que vi aquela pessoa especial de longe mas não pude falar nada, ou então do resultado do jogo da noite passada. Podia até mesmo ser sobre aquele pedaço de comanda que cruzou meu caminho na volta para casa, ou sobre o calor que fez à tarde.
Escrever talvez seja uma extensão da vida. E sem viver não sairia uma vírgula.
Antes de pensar o que renderia algo aceitável, é preciso pensar no motivo e em o que você quer tirar pra fora em forma de palavras.
Pensando bem, eu podia escrever sobre todas essas coisas, mas nessa andanças entendi que as vezes se calar diz mais do que quando se fala. Uma página em branco muitas vezes pode ter mais história do que aquela comanda velha e suja que encontrei na rua hoje. A ausência da palavra também diz muito.
Quem iria querer saber sobre coisas irrelevantes do cotidiano? Talvez um psiquiatra ou um companheiro de copo.
Deixar aquela página em branco e ir sair pra rua dizia muito mais do que qualquer coisa.
