porta sem chave
by junio

Meses de buscas sem sucesso. Conseguia lembrar do último momento que havia visto ela, mas a memória não era capaz de indicar onde ela tinha ido parar.
Perder aquela chave fez com que eu me sentisse preso. A porta, sempre aberta, fazia com que qualquer um entrasse a hora que bem entendesse.
Algumas noites sentia falta do barulho da chave rodando em contato com a fechadura. Em outros a saudade vinha das lembranças de quando trancar aquela porta significava mais do que privacidade.
Era se fechar em um mundo, mesmo que em um espaço de 10 metros quadrados. Um lugar onde eu era o rei, governador e autoridade máxima. Hora ou outra esse mundo era aberto, e a entrada de pessoas permitidas.
Conseguia ter flashes do fatídico dia. Pensava estar tudo certo. Não podia imaginar que o som do quarto ligado no volume máximo às 3h da manhã de uma terça feira, com a porta trancada, pudesse incomodar alguém.
Conseguiram fazer com que eu abrisse a porta depois de algum tempo.
Na minha cabeça, depois de algumas doses de rabo de galo, o barulho estava baixo, assim como o teor de álcool em meu corpo. Me enganei nas duas.
Depois daquele dia a chave da porta do quarto sumiu misteriosamente. Ou melhor, desapareceram com ela para que cenas como aquela não se repetissem.
Os meses sem conseguir trancar a porta do quarto, para se quer conseguir passar uma noite pelado em dias de verão, foram ruins.
Lembrar dos dias onde girar a fechadura significava ter a mulher que amava em minha cama, conseguir me concentrar em algo sem interrupções ou não ter minha bagunça trocada de lugar, fazendo com que eu me perdesse na organização, era um sentimento saudoso e triste.
A falta de liberdade desgraçava.
Na vida ou em um quarto. Um homem preso ao ponto de não ter liberdade para decidir a hora de se trancar ou não.
Hoje a noite estou como vim ao mundo.
A chave da porta do quarto consegui encontrar alguns dias atrás, sem ao menos esperar, em um pequeno pote escondido em um dos armários da casa. Já a da liberdade, continuo na busca.
