uma briga fria
by junio

Quando vi a confusão começando peguei o meu copo e sentei em outra mesa. Não queria correr o risco de alguns socos, garrafas de vidro ou empurrões acabarem escapando e sobrando pra mim.
Garrafas voando e se estilhaçando nas paredes, socos e empurrões. No centro daquela confusão Burunga e Rufião. Dois homens de meia idade, ambos físico normal para dois homens que estavam na casa dos 40 anos e viviam pelos botecos da cidade, aparentemente já bêbados, e pelo que pude entender, brigando por um esbarrão Rufião na mulher de Burunga.
As noites na esquina da rua 67 ferviam no fim de semana. O bar do Celso era ponto de encontro das mais diferentes pessoas, que iam até lá para beber e dançar forró. Famílias, bêbados, jogadores de baralho, mulheres da noite, trabalhadores, traficantes e homens cansados, mercenárias. Todo tipo de gente passava ali.
Burunga vestia calças sociais, camisa de linho fino e sapatos de couro. Tinha boa aparência, mas toda sua pinta acabou depois de tomar uma garrafada certeira na testa. Saiu carregado por sua esposa e companheiros que juravam voltar lá, ainda naquela noite, e dar um jeito em Rufião. Era mais uma briga que não daria em nada.
Nas minhas andanças pude presenciar os mais variados tipos de briga, pelos mais diversos motivos. Pude entender que a melhor forma de se defender é atacando, ainda que você seja a parte mais fraca.
E foi exatamente o que Rufião fez. Apesar de ser menor que o homem que vestia boas roupas, o terceiro maior jogador de sinuca da região não hesitou em ir para cima com tudo assim que sentiu a primeira trombada.
O maior problema em uma briga é a certeza de que, ainda que ataque seja impossível vencer. Rufião sabia que podia vencer, então atacou. Mas seu rival era apenas um homem metido a malandro. Pouca coisa, quando comparado ao pior inimigo que podemos ter. Nós mesmos.
Eram difíceis todos aqueles dias onde tirar o rabo de cima da cama parecia uma batalha. Onde em um mesmo dia sentia a sensação de ser um deus, conseguir ver beleza até nas coisas mais feias, ter fé, esperança em um mundo melhor, e pouco tempo depois olhar para tudo e não enxergar nada de bonito. Talento, sentimento, fé, crença, esperança.
Precisava derrotar aquilo. Quem sabe com uma facada ou um tiro. Não era boa a sensação de ser um cara qualquer, beirando os 25 anos, fazendo o que todos homens normais fazem, mas com uma guerra entre dois mundos na cabeça, sendo minha companheira diaria.
Como seria andar por ai sem esse demônio que faz eu me sentir como alguém que não faz nada direito. Desde cortar uma unha do dedão, até se enxergar como alguém amável. Vivências, escolhas, destino ou sorte no azar. Não sei.
Eram 2h da manhã. Carregava um maço de cigarro pela metade no bolso da camisa, e no peito a sensação de não ter sentido eu estar ali, ainda que soubesse que tinha valor para algo. Procurava explicações.
Ao mesmo tempo a vontade de derrotar esse demônio, de não ver o pior e o melhor do mundo várias vezes durante o dia, brotava no mesmo peito. Os efeitos de viver nesses dois mundos eram ruins.
Pensei em pedir algumas dicas com Rufião, mas vi que uma garrafada, agressiva como aquela, só machucaria e não derrubaria meu inimigo, assim como foi com Burunga.
Paguei minha conta, fui para casa, e naquele resto de noite abracei a dúvida que me acompanhava sempre. Ia acordar no dia seguinte olhando o céu, o canto dos pássaros, aproveitando a brisa e leve, ou apenas ia desejar uma garrafa atravessando minha jugular? Dormi.
