ônibus linha 108

by junio

108-11- 1981

Acordar era mais fácil do que nos outros dias. Aqueles onde ao abrir o olho só pensamos no que precisamos fazer por obrigação, no trânsito, nas merdas que podem acontecer e no tão esperado fim do dia.

Esses dias eram diferentes. A preguiça e a vontade de não sair davam lugar à euforia. Ouvia uma música animada enquanto tomava banho, vestia uma roupa boa, amarrava os sapatos, pegava a carteira e saia.

Ia até a rodoviária central. Às 8 horas já estava na fila esperando o ônibus. A movimentação era grande. Pessoas esbarrando uma nas outras, principalmente em dias de visita na papuda, quando a baia ao lado, do ônibus com o itinerário até a penitenciária, ficava lotada de familiares, principalmente mães, que iam visitar quem estava preso.

Não dava sorte de pegar a linha rural, que ia direto e rápido. Sempre ia no 108. Apesar de fazer um caminho mais longo, ainda conseguia chegar rápido pelo horário que era cedo, e eu estar fazendo o caminho contrário. Enquanto as pessoas vinham para seus trabalhos, eu estava indo para o lugar de onde vinham.

Em horários de pico era preciso ser estratégico. Se fosse descer logo no começo escolhia um lugar perto da porta, caso contrário, sairia espremido no meio das pessoas que se amontoavam no corredor.

Ao chegar na pista estreita e íngreme eu começava a me preparar. Dois pontos à frente eu descia e ia até o terminal. Era a hora que estavam lavando tudo. Procurava um lugar para sentar, acendia um cigarro e fazia uma ligação.

“Cheguei”.

Ficava por ali, observando a movimentação de motoristas e cobradores. Ônibus entravam e saiam indo pros mais diferentes destinos.

Colocava uma balinha de menta na boca, olhava para um lado e para outro. Ainda que odiasse esperar, em qualquer situação, nesses dias era diferente. Sabia que mesmo com atraso, chegaria. Após a espera ficava ali. Alguns dias fazendo nada, apenas sentados. Em outros fazendo algo. Mas sempre sem se importar muito com o que, e sim em estar.

Os ponteiros do relógio se aproximavam do meio dia. Sentava em um banco de concreto, em frente onde o 108 estacionava, já em tom de despedida. Precisava ir trabalhar.

Entrava no ônibus, olhava pela janela e sem precisar de qualquer movimento, me despedia apenas com o olhar.

O calor, as pessoas se espremendo, o cheiro de suor no ônibus, os relatórios que precisava entregar ou o motorista que dirigia devagar quando eu estava atrasado, não me irritavam. Eram dias diferentes, e eu podia sentir isso no restante do dia.

Eram boas as manhãs, tardes e noites onde eu pegava o 108. Hoje, porém, quando vejo ele, a sensação que tinha, do pedaço de pedra no peito sendo transformando em algo quente e agradável sempre que voltava de lá, dá lugar a outros.

O principal deles o de que esse sentimento, para algumas pessoas, é fugaz como passageiros de um ônibus que embarcam e depois descem em seu destino final.

O 108, apesar de tudo, era um ônibus confortável e tinha lá suas qualidades. Mas não tardava para estar, novamente, escuro e vazio em algum ponto da cidade.

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