o homem que só ria
by junio

O riso é associado a algo bom, feliz e alegre, mas às vezes ele pode trazer vários sentimentos ocultos por trás.
Percebi que há muito tempo eu só ria. Não importava o que acontecesse, eu estava sempre rindo, apesar do semblante sério e olhos opacos que sempre tentavam esconder algo.
Talvez eu tenha chegado naquele ponto da vida onde acomodei na situação que estava.
A esperança e a fé na humanidade me pareciam como uma boa cerveja quente ou um patrão que dá valor ao trabalho do seu empregado. Pode até existir em algum lugar, mas seria mais fácil ganhar na loteria do que encontrar isso.
Por alguma razão sempre que me perguntavam sobre algo sobre mim eu contava o falava com certo escarnio, e só rindo. Vi nisso uma forma de não ser incomodado com preocupações disfarçadas em mera curiosidade em saber o que acontecia. O ser humano adora uma merda, como jornalista posso afirmar isso.
Hora ou outra aquele riso alegre aparecia, mas na maior parte do tempo eu só ria. Só ria da minha própria situação e das coisas que aconteciam na minha vida. Quase como se quisesse dizer que estava tudo bem em estar tudo errado.
Eu precisava cortar as unhas dos pés, tinha que arrumar dinheiro para pagar minhas contas, precisava cuidar mais de mim e da minha saúde, sentia saudade de alguns momentos que se foram, queria uma companhia. Tudo que eu fazia era só rir.
Sempre que contava algum episódio da minha vida para alguém, mesmo que sem grande importância ou grandes acontecimentos, eu fazia isso rindo. Não importava se eram tristes ou felizes. Mesmo os ruins acabavam virando algo engraçado para elas. Eu só ria e isso fazia com que o peso das coisas ficasse menor.
Eu só ria, e isso acabava me blindando. No final das contas eu percebi que eu sempre ria sozinho de mim mesmo. Eu sempre me pegava só rindo, tendo como companhia apenas minha consciência, que de alguma forma dizia: apesar de tudo, lá no fundo, você sabe várias coisas podem acontecer, mas você vai só rir, rir sozinho, apesar de não querer isso.
