derby prata

#JORNALISMODEBUTECO – morreu sereno

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              Morreu da forma que viveu a vida toda. Esculpido pelo barro de suas atitudes, conseguiu ter uma das mortes mais belas que já vi na vida. Se é que há algum glamour na morte.

            Primeiro de maio, lembro como se fosse hoje, a ressaca me abatia assim que acordei. Feriados nas segundas-feiras sempre causavam isso. O final de semana ganha mais um dia, e então, o exagero toma conta de tudo. Eu precisava tomar água, por causa da boca seca, mas não consegui pensar nisso depois da ligação que recebi naquela manhã quente de verão, sem vento algum e com sol de rachar.

            A frase que mais falava durante seus últimos meses de vida era “é, a coisa tá preta”. Dizia rindo e sempre soava como um clichê mas hoje faz sentido. Talvez em toda a minha vida eu não consiga transmitir tamanha sabedoria em poucas palavras.

            Raimundo era uma das pessoas mais introspectivas que já conheci na vida, o mundo podia estar acabando que o seu semblante não mudava, exceto quando sua esposa, um casamento de mais de 50 anos, deixava a torneira da pia da cozinha ligada ou batia alguma porta muito forte. “Todo dia é essa mesma coisa!”, falava em um tom sério, mas sempre seguido de uma gargalhada.

            Trazia no rosto as marcas de uma vida sofrida, mas vivida. Enfrentou grandes secas no nordeste brasileiro, em tempos onde se vendia o almoço para comprar a janta, mas ainda assim conseguiu criar seus cinco filhos, a base de feijão, farinha, milho e mandacaru nas épocas de seca extrema.

            Apesar disso, era notável a permanência da serenidade no olhar dele, sempre com a voz mansa e compreensível.

            “Sempre que eu ia para as festas, quando percebia que a cachaça estava me pegando eu ia pro meio do mato dormir. Você devia fazer a mesma coisa, mas hoje em dia nem dá, capaz de te matarem, né?”, me falou um dia enquanto conversávamos, meses antes de ir embora.

            Diante da dureza da vida, que já não lhe parecia ter  muita graça, do alto dos seus 85 anos, Raimundo trazia uma leveza de causar inveja nos dias de hoje. Era humano, e como todos outros carregava em si medos. O principal deles era, segundo ele, não “servir mais para nada”. Falava da morte como se fosse um amigo intimo, uma certeza, um alívio e um ponto final de toda severidade da vida.

            Das preocupações que carregava durante sua velhice as duas maiores eram com os filhos, e isso mostrava todo o seu altruísmo. Apesar de quase nunca falar à respeito, era evidente o seu olhar de preocupação quando sua filha mais nova saia sem explicar para onde ia, ou quando pedia para alguém comprar bolo e refrigerante para o filho que só se afundava cada vez mais, sozinho, em casa, no auge de seus 130 kilos, após um término de casamento conturbado e de uma demissão.

            “Você é bem forte pra cachaça né? Mas devia beber mais devagar”, falava em uma de nossas últimas conversas. Raros momentos onde a intimidade era exposta, e algumas feridas abertas. Sem saber o que falar enquanto o ouvia dizer que foi comparado à um bebê, que só servia para dar trabalho, tentava apenas falar algo animador, mas infelizmente não tinha o mesmo dom de ver a vida de um jeito simples e leve como ele.

            O jornalismo, acima de tudo, é contar histórias, sejam elas longas, curtas, factuais ou reflexivas. Ele se faz por meio de pessoas, afinal, sem elas nada haveria para se falar.

            O processo de apuração pode demorar muito tempo, dependendo do que se pretende falar, e 21 anos não foram suficientes para desvendar alguém tão próximo, talvez por descuido em aproveitar mais o tempo, ou simplesmente por ser algo tão grandioso.

            Raimundo Ferreira, 85 anos, nordestino de Tauá,  uma das personalidades mais marcantes que já tive o prazer de conviver e aprender. Partiu no anonimato, sem grandes realizações na vida ou reconhecimento, mas deixou marcas para sempre na vida com quem conviveu. Assim como várias Marias, Josés e Franciscos e semelhantes, do Brasil a fora.

            Morreu como viveu sua vida, encarando com serenidade as coisas mesmo quando soltava a sua frase clássica, “é, a coisa tá preta!”, sempre seguido de um sorriso. Não de felicidade, mas sim de aceitação. Era uma forma de dizer que provavelmente já sabia qual seria o seu destino, e ainda assim preferia sorrir dela, ao invés de se lamentar. Raimundo Ferreira, um cidadão comum, fora dos holofotes, mas que como várias figuras marginalizadas, tinha muito à ensinar.

 

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